A História da Arte e A Arte em Estúdio

℘ Maria Lúcia de Oliveira

Edward Munch, O Grito, 1893

O Grito é uma obra-prima do pintor norueguês Edvard Munch (12/12/1863- 23/01/1944). É uma obra de arte expressionista que simboliza o sentimento de angústia do ser humano. É uma das pinturas mais populares de todos os tempos e revela várias características de Munch: a força expressiva das linhas, redução das formas e o valor simbólico da cor. Pintada pela primeira vez em 1893, a tela foi ganhando três novas versões com o passar do tempo: a primeira foi pintada a óleo sobre tela e as outras três versões foram criadas com outras técnicas até 1910. Historicamente, a obra de Munch é classificada como iniciadora do expressionismo — importante movimento modernista da primeira parte do século XX. Suas telas são densas e abordam temas difíceis como a solidão, a melancolia, a ansiedade e o medo. Esta obra de arte mostra alguém em desespero, revelando-nos o sentimento do artista que, como se sabe, enfrentou vários problemas psicológicos e conflitos familiares durante sua vida. A sensação de medo vivenciada pela primeira vez em minha vida, em função do aparecimento de um vírus letal, globalizado, o COVID-19, que forçou a humanidade a enfrentar um perigo iminente e de características a princípio desconhecidas, e a consequente quarentena a que tivemos de nos submeter, criou um ambiente de pavor e fragilidade, desafiando-nos a buscar não apenas soluções práticas, mas, principalmente, soluções para nossos medos e angústias. Ao pensar em uma obra de arte para a presente tarefa, ‘O Grito’, de Munch, veio-me quase que num súbito desejo de ser eu aquele grito! Expressividade que representa o rosto de cada um de nós! Imaginei-me ali, naquele ambiente aberto, perigoso pois que povoado pelo vírus, tentando gritar, engolindo o grito de angústia, gritando quase que emudecida pela necessária máscara de proteção.

Lucia-Releitura O grito - edição da imagem em photoshopEdvard_Munch_-_The_Scream_-_Google_Art_Project

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A História da Arte e A Arte em Estúdio

℘ Bárbara Lempp

Edward Munch, O Grito, 1893

Estamos vivendo em um período sombrio devido à pandemia COVID-19. Não sabemos muito bem de onde ela surgiu, como ela surgiu, o porquê dela existir na Terra, mas sabemos que é uma doença silenciosa, que vem tirando muitas vidas ao redor do mundo e mudando completamente o nosso estilo de vida. Isso gera uma angústia. Gera um medo e a incerteza do que virá no dia seguinte, do que será de nós, da nossa família, de nossos amigos, de nossa cidade, de tudo. Gera questionamentos sobre o porque de estarmos passando por isso tudo. Será isso uma providência divina? Será isso uma consequência do modo de vida desenfreado que o ser humano vêm tendo nos últimos anos? Será uma “arma” feita pelos outros países? Será… Será??? Não sabemos como será o dia de amanhã e — para se juntar ao time da angústia —, passamos também por incertezas políticas, raiva, desespero…

Então, a palavra que uso para definir o que eu tenho sentido ultimamente é a angústia. Me lembrei imediatamente do quadro de Edvard Munch — O Grito —, que é uma obra expressionista que revela muitas características do pintor norueguês: a força expressiva de suas linhas, a forma de reduzir as suas formas e um uso característico e único de cores, onde na maioria de suas obras, e principalmente por Munch sintetizar muito bem os sentimentos, as expressões e os conflitos psicológicos do ser humano e passar tudo isso para suas obras.

Em minha releitura, quis copiar a forma de alguém em desespero (eu mesma), sentindo a dor da angústia, que é reforçada com a frase em alemão “Eu vivo em angústia” (Ich lebe in Angst), gerando a expressão de pânico e consequentemente um grito. A figura principal do quadro está no meio de uma cidade, com seus arranha-céus, reforçando a solidão e incerteza que a pessoa vem passando.

 

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℘ Andréa Bahury

Henri Matisse, A Mesa Posta, 1897 — Pablo Picasso, Pablo vestido de Arlequim, 1925

Utilizando a concepção de arte como um fazer e também como forma de se expressar e inspirada nas obras A Mesa Posta de Henri Matisse e Pablo Vestido de Arlequim de Pablo Picasso, resolvi retratar um pouco do meu cotidiano adornando-o com cores nesses tão sombrios tempos… Arrumar a mesa é algo que me dá um prazer estético e assim que vi a pintura A Mesa Posta me ocorreu que seria possível, eu que me sinto tão privada de habilidades manuais, utilizar a imagem como referência para colocar a minha mesa como foco de outro olhar, não por meio da pintura ou do desenho, mas do próprio ato de arrumar, de escolher os pratos, as taças, os talheres, a jarra, a fruteira, a maçã vermelha, o vaso campestre com flores e tudo com cor, muita cor, porque sinto a necessidade de alegria, de vida, de pulsão. O quadro de Matisse A Mesa Posta não tem assim tantas cores e são cores mais suaves, mais sombrias, em tons até mesmo pastéis, diferente de suas obras posteriores, mais luminosas e coloridas. Mas desejava a minha mesa posta com variedade de cores, com azul, amarelo, verde, vermelho, vinho, com cores fortes e ao mesmo tempo suaves, com cores se misturando com harmonia e serenidade. Montei primeiramente a mesa com os coloridos objetos, fotografei e após resolvi me inserir nessa montagem, com o meu macacão colorido, meu macacão de arlequim que tanto gosto e que me traz alegria. E me inseri na preparada cena com um bule de flores, evocando a mulher presente na pintura A Mesa Posta e também Pablo Vestido de Arlequim. Aquela criança, Pablo, filho de Picasso, com uma roupa tão alegre, mas quieta, encostada na cadeira, com um olhar distante e pensativo e, ao mesmo tempo, cheio de vida… Retratado revelando uma seriedade pouco comum em crianças e talvez até mesmo certa tristeza, apesar da vivacidade transmitida…

Ao desmontar a cena uma taça se quebrou, uma taça azul, e aconteceu sobre um prato azul, julguei que deveria fazer parte da arte do fazer, pois o acaso também tem capacidade construtiva. Enfim, aqui vai um pouco de mim e do meu cotidiano nesses tempos sombrios de pandemia, mas que certamente também nos iluminam, basta que saibamos colocar cores e a arte se torna nossa companheira, lugar de refúgio e vida…

 

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℘ Ana Luiza Mendonça

Edward Munch, O Grito, 1893

O Grito (em norueguês: Skrik) é uma obra de 1893, que faz parte de uma série de quatro pinturas do pintor expressionista Edvard Munch. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. Usando das cores para traduzir a intensidade dos sentimentos e desprezando a exigência de verossimilhança da pintura naturalista, esta obra icônica dialoga de forma magistral com a situação de pandemia por todos vivida, e por isso foi escolhida para apresentação. A releitura apresentada foi feita por meio do aplicativo Google Arts and Culture.

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℘ Amanda Menezes

Henri Matisse, Janela aberta, Collioure, 1905


Pintada em 1905 em Collioure, uma pequena cidade na costa mediterrânea da França, a obra representa o início de um novo caminho na arte de Matisse, onde a janela aberta se torna a metáfora da janela de pintura. A composição do quadro é uma série de molduras dentro de molduras: a parede contém a janela, que enquadra a varanda e que, por fim, emoldura a paisagem.

Escolhi essa obra por ela contemplar uma realidade muito atual. Em março de 2020 o mundo entrou em quarentena devido a uma pandemia global, do novo coronavírus, e nos vimos obrigados a nos recolher em nossas casas e praticar o isolamento social.

Portanto, a janela para o mundo exterior que nos restou foram as janelas digitais. Todo nosso contato com o mundo exterior se resumiu a uma janela do celular que nos mostra o mundo e as pessoas que gostamos. Ao construir essa releitura, optei por escolher o Instagram uma rede social onde as pessoas compartilham suas rotinas, seus interesses e suas vidas não tão reais. Assim, procurando pela hashtag window reuni uma série de fotos das janelas de outras pessoas, construindo um painel de outras janelas inseridas na janela de Matisse. Desse modo a construção segue os parâmetros da “moldura dentro da moldura” se tornando uma “janela dentro de outra janela”.

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A História da Arte e A Arte em Estúdio

℘Adriana Piantino

Vincent van Gogh, A Noite Estrelada, 1889


‘A Noite Estrelada’, paisagem vista da janela do quarto de Van Gogh no sanatório de Saint-Rémy de Provence, revela a maneira como ele pintava. Van Gogh pintava o que sentia, para ele as cores representavam o seu estado de espírito. Em suas obras podemos observar uma grande tensão emocional, o que de certa maneira nos aproxima tanto dele.

A história de cada um é completamente diferente da história do outro. Mas, o fato de estar confuso sobre sua existência, ser tão incompreendido, e a dramaticidade somada a essa inconstância emocional e aliada a questões existenciais, nos leva a associar Van Gogh às angústias que atormentam os seres humanos em qualquer época e, em especial, o número de pessoas que sofrem com a solidão, competição e ansiedade impostas pelo mundo atual.

Além disso, as cores vibrantes e o amarelo característico de Van Gogh representam um estado de espírito que reverbera em mim, o amarelo me traz alegria, vivacidade e criatividade. Assim, incluo a cor em meus acessórios pessoais, na decoração do meu espaço de criação e também em alguns ambientes da minha casa. Me admira muito o fato de como ele foi inovador ao perceber a associação das cores ao estado de espírito. Hoje o estudo sobre a psicologia das cores analisa a mudança que essas provocam nas emoções, sentimentos e ainda na criação de desejos das pessoas. Por esses motivos, Van Gogh é tão especial para mim e, por isso, foi a minha escolha para a releitura.

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A História da Arte e A Arte em Estúdio

 

Existe uma lacuna entre a conceituação histórica da arte e a prática da arte em um estúdio. Para entender a história da arte e sua relação com seus objetos, ou compreender a arte em um estúdio e sua relação com a história da arte, é preciso encontrar uma interseção entre estúdio de arte e história da arte. Didaticamente, este caminho ainda é um assunto discutido por poucos, mas podemos começar a abordá-lo em nossas aulas. Sendo assim, a ideia do trabalho desenvolvido por alunas do curso de especialização em História da Arte do IEC – Instituto de Educação Continuada da PUC Minas baseou-se em estimular uma conversa sobre a ponte e a lacuna entre a prática, a experiência do fazer e a compreensão histórica e filosófica da arte.

Para as estudantes do curso de especialização em História da Arte, este é o cerne do curso, privilegiando o processo e não o resultado final, as orientações foram:
1. Faça uma releitura de uma obra que tenha despertado sua atenção nos estudos sobre Arte Moderna.
2. Pesquise a literatura histórica da arte sobre a obra escolhida.
3. Para fazer a releitura transponha a obra para a atualidade, a partir das conexões entre suas experiências e as evidências e registros da história da arte sobre ela.

A ideia era que as alunas percebessem a obra de arte de uma maneira mais próxima e passassem a compreendê-la como um evento continuum que traduz o mundo, sua beleza, sua miséria, sua esperança, em qualquer época. Além disso, fortalecer os vínculos entre ver, conhecer e fazer. O fazer desenvolve um drama que não é acessível para aqueles que apenas olham para o trabalho final e, veem apenas a luta completa. O que importa é o processo, as possibilidades e aberturas para o futuro.

O que os historiadores da arte escreveriam de maneira diferente se tivessem tido a experiência de copiar ou fazer uma releitura sobre a obra, antes de escrever sobre ela? Esta é uma pergunta inacreditavelmente boa sobre a relação entre a prática de estúdio e a história da arte, e é tremendamente difícil de responder.

O resultado da nossa experiência de releituras elaboradas por historiadores da arte, vocês poderão apreciar nas postagens ao longo da semana.

 

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Artemisia Gentileschi #MeToo

Se eu falo sobre Artemisia Gentileschi, o assunto lhe parece familiar? Provavelmente não. É que ser mulher e pintora no Barroco não foi fácil.

Artemisia nasceu em Roma, em 8 de julho de 1593. A artista faz parte de uma saga de artistas de origem toscana, a Lomi. Sua arte se enquadra na tradição da família. Seu avô, Giovan Battista Lomi, era ourives e seu pai, Orazio, e seu tio Aurelio, eram pintores, que treinaram na oficina de seu tio Baccio Lomi, seguindo o estilo maneirista toscano de Agnolo Bronzino.

A artista recebeu forte influência da tendência naturalista de Caravaggio. Como no trabalho de seu pai e professor, o lado caravaggista de Artemisia aparece no forte contraste de luz, em que nos cenários e paisagens predominam os tons mais claros.  Em Artemisia, o realismo prevalece. Seu primeiro trabalho conhecido é ‘Susana e os anciãos’, de 1610, que se encontra na Fundação Castelo Weissenstein, Coleção Schönborn, em Pommersfelden, um município na Alemanha. A pintura está assinada e datada, na pedra da fonte ao lado da perna da jovem. ‘Susana e os anciãos’ representaria o desejo, se o pintor fosse homem. Mas, a ‘Susana’ de Artemisia Gentisleschi mostra algo menos agradável. Se Artemisia vivesse no século XXI, participaria do movimento #MeToo. Isso marcou sua carreira.

Susana e os Anciãos, 1610, óleo sobre tela, 119 x 170 cm

Começou como pintora de retratos, mas muitos de seus temas são de personagens femininas, heroínas e mulheres fortes, especialmente a Virgem Maria e mulheres que aparecem em diversas passagens da Bíblia. Além de Suzana, estão entre elas, Cleópatra, cerca de 1620, Salomé com a cabeça de São João Batista, entre 1610-1615, Madalena penitente, 1615-1616, A Virgem amamentando a criança, cerca de 1616-1618, Santa Catarina de Alexandria, cerca de 1635, Davi e Betsabá, cerca de 1636 a 1637.

Em 1639, realizou um autorretrato como a alegoria da pintura, figura que sempre foi representada por uma mulher, o que impossibilitava que os pintores homens o fizessem. Em ‘Autorretrato como Alegoria da Pintura’, Artemisia se apresenta portando um pincel, diante de uma tela, no ato de pintar.

Gentileschi, Autorretrato como Alegoria da Pintura, 1638-39, óleo sobre tela, 93,5 x 73,7 cm

Entre 1612 e 1620 viveu em Florença, na corte do Grão Duque da Toscana, onde pintou uma de suas obras mais conhecida ‘Judith decapitando a Holofernes’, são duas versões, uma no Museo Nazionale di Capodimonte e outra versão na Galería degli Ufizzi. Também foi em Florença que conheceu Galileo Galilei, com quem manteve uma grande amizade e intercambiou correspondência durante o resto de suas vidas.

Entre 1620 e 1627 regressou a Roma, onde entrou em contato com algumas pessoas importantes como o secretário do Cardeal Francesco Borghese, Cassiano del Pozzo, com quem, também, manteve importante correspondência epistolar. Por mediação de Cassiano, Artemisia foi retratada pelo pintor francês Simón Vouet, entre 1623 e 1626, em Roma.

Retrato de Artemisi Lomi Gentileschi

Simón Vouet, Retrato de Artemisia Lomi Gentileschi, entre 1623-1626, óleo sobre tela, 90 x 71 cm

Depois de 1627, passou um período em Veneza, e, finalmente em 1630, Gentileschi se estabeleceu em Nápoles pelo resto de sua vida, salvo algumas viagens entre 1638 e 1642, a Londres, onde trabalhou com seu pai, a convite do Rei Carlos I.

Artemisia Gentileschi se tornou a primeira mulher a ser membro da Academia de Pintura de Florença.

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Jan Steen: um contador de histórias

No século XVII (anos 1600), Leiden se orgulhava dos “muitos pintores famosos e extremamente talentosos” que a cidade produzia. Devido a uma prosperidade recém-adquirida, a cidade se tornou um dos mais importantes centros artísticos do norte da Holanda. Pintores famosos como Rembrandt, Jan Lievens, Jan van Goyen, Jan Steen, Gerrit Dou e Frans van Mieris fizeram a Escola da ‘bela pintura’ de Leiden, não uma escola em termos físicos, mas um movimento artístico, um centro artístico internacionalmente conhecido. Novos temas e retratos, tipicamente de Leiden, foram introduzidos no mundo da arte. Lievens e Rembrandt tinham grandes aspirações no campo da arte da pintura da história tradicional. Mas eles também se concentraram em retratos, autorretratos e representações de pintores em seus estúdios. Van Goyen inovou com suas belas paisagens atmosféricas. A presença da universidade mais antiga da Holanda e um público de estudiosos, administradores e estudantes tiveram um papel importante na pintura de Leiden. Na segunda metade do século XVII, Gerrit Dou,  aluno de Rembrandt, com seus painéis de tirar o fôlego, foi um dos principais fundadores da “bela pintura” de Leiden que fez escola até o século XVIII.

Um desses artistas, nativo de Leiden, Jan Havicksz Steen (1625-1679), viajou por toda a Holanda e reuniu influências de várias fontes, especializando-se em temas como os caóticos encontros familiares da classe burguesa, representações da vida escolar, tabernas turbulentas, encontros amorosos, cenas dominadas por vícios da época. Tais temas tinham  conotações moralizantes, mas o resultado também era hilário. Steen era um contador de histórias nato, com um senso de humor admirável. Sua capacidade narrativa se reverbera na variedade de temas cotidianos representados em suas pinturas. Foi um dos artistas mais populares do Barroco Holandês no século XVII. Suas pinturas nos encantam e nos levam a pensar que ali naquelas cenas estão vestígios de sua própria vida. E são essas, as coisas simples da vida cotidiana, que existem em todas as épocas, em cada uma à sua maneira, que ainda nos fascinam, trezentos e quarenta anos após a morte do artista.

O padeiro Arent Oostwaard e sua esposa, Catharina Keizerswaard, 1658. Óleo sobre painel de madeira, 37,7 x 31,5 cm.

Aret Oostwaard e Catharina Keizerswaard, um padeiro de Leiden e sua esposa orgulhosamente oferecem seus produtos frescos. Um texto na parte de trás da pintura revela o nome do casal. Na porta da padaria, um garotinho toca uma buzina. No texto, o menino também é mencionado: é Thaddeus, o filho do casal. Jan Steen combinou vários temas em uma pintura. É um retrato, uma representação de uma profissão e uma natureza morta com vários tipos de pães e biscoitos. Acima da porta há videiras.

Em algumas de suas pinturas, Steen costumava fazer de si mesmo o alvo de suas próprias piadas. Para isso, colocava seu autorretrato no centro do caos doméstico, como na tela “A família desfeita”.

A família desfeita, c.1663-64. Óleo sobre tela, 108 x 90,2 cm.

O tema central é o envolvimento amoroso entre o dono da casa e a empregada. O senhor da casa é representado pelo próprio artista que entrelaça os dedos com os da empregada, que serve à sua esposa uma generosa quantidade de vinho. A dona da casa, absorvida no reabastecimento de seu copo de vinho, permanece alheia para perceber a cena que se desenrola ao seu lado. Pequenos eventos acontecem simultaneamente: um jarro quebrado alerta contra o comportamento desprezível dos dois; um gato doméstico travesso de olho em um pedaço de carne no chão e garotos brincalhões contribuem para controlar as questões emocionais presentes, tornando o ambiente mais leve.  Apesar disso, sugestões de um destino sinistro pairam literalmente sobre as cabeças da família, na forma de uma cesta que contém uma muleta, reveladora de uma fraqueza; uma espada que pode significar o dualismo entre a realidade e a condição humana; um feixe de varas que lembra a força da união e, o valete de espadas, significando infortúnio, devido às intrigas entre duas damas. Na Holanda, Steen está ao lado de Rembrandt, Vermeer e Hals em popularidade, e a expressão ‘casa de Jan Steen’ se tornou parte do idioma holandês para descrever o tipo de casa animada e desarrumada retratada em muitas de suas pinturas.

Detalhes da pintura “A família desfeita”, 1665-64

Jan Steen representa uma visão do caos que atropela uma família quando o “apetite” não é controlado. Um elegante arranjo de frutas representa a gula e a natureza potencialmente corrupta do luxo diante de um verdadeiro catálogo de vícios representados por vários objetos.

Segundo Arnold Houbraken (1660-1719), pintor e escritor holandês, lembrado principalmente como biógrafo de pintores holandeses do chamado ‘Século de Ouro’, as “pinturas de Steen são como o seu modo de vida e o seu modo de vida como as suas pinturas”, e em sua biografia ele se concentra no humor de sua obra. Porém, Steen, também pintou retratos, assuntos históricos, mitológicos e religiosos (ele era católico), e os animais, pássaros e detalhes de natureza morta em suas imagens rivalizam com os de qualquer um de seus contemporâneos. Mesmo suas pinturas mais cômicas costumam ter um tema subjacente sério, que evidencia a fragilidade humana. Ele estudou em Haia com Jan van Goyen e casou-se com a filha do artista. Não tinha alunos registrados, mas muitos tomavam seu trabalho como modelo.

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“Vivia sua pintura e pintava sua vida”

via “Vivia sua pintura e pintava sua vida”

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