E agora, Kandinsky?

Hilma af Klint (1862-1944)

Hilma af Klint (1862-1944)

Na eterna discussão de quem foi o primeiro artista a chegar à abstração, alguns sustentam que o mérito foi de Mondrian. Outros apoiam Malevich, Kupka e Delaunay. Mas, a grande maioria defende a ideia de que foi Kandinsky quem deu o passo decisivo. O próprio pintor se autoproclamava como o primeiro autor de um quadro não figurativo, por volta de 1911.

O que nenhum deles sabia era que uma desconhecida pintora sueca rompeu com a linguagem figurativa em 1906, cinco anos antes deles. Seu nome era Hilma af Klint (1862-1944), uma pintora de paisagens e retratos. Formou-se em pintura na Royal Academy Of Fine Arts em 1887, em Stockholm, graças a uma lei escandinava que permitia o acesso de mulheres à educação artística bem antes da França, Alemanha ou Itália. Hilma ganhava a vida vendendo paisagens naturalistas e desenhando estudos anatômicos para a escola de veterinária. Mas isso não era tudo o que Hilma sabia fazer. Em seu estúdio, experimentava outros tipos de pinturas. Interessada por teosofia desde a sua juventude, desenhava círculos concêntricos, formas ovais e espirais sem fim, que pretendiam simbolizar o cosmos. Algumas vezes pintava sob o efeito de hipnose. Hilma pertencia  a um grupo de mulheres pintoras, The Five, que se reunia uma vez por semana para a prática de esoterismo e para desenhar em estado de semiconsciência. Antes do final de 1915, quando a abstração se tornara evidente nas elites intelectuais, Hilma já havia pintado mais de 200 composições abstratas.

Sua história permaneceu desconhecida por uma razão simples: a pintora morreu sem ter exposto qualquer de suas pinturas abstratas. A própria artista pediu para que suas obras não fossem expostas até pelo menos 20 anos após a sua morte, que ocorreu em 1944, aos 81 anos. Ela estava convencida de que o mundo não estava preparado para ver o seu trabalho, talvez por ter enfrentado a incompreensão daqueles com quem convivia.

Obras de Hilma af Klint

Obras de Hilma af Klint em Moderna Museet Stockholm em 2013

Até o momento, o seu nome permaneceu em uma esfera restrita, embora não fosse completamente desconhecida. Algumas de suas pinturas já foram expostas em Los Angeles, New York, Paris e Málaga. Em 2012, o diretor do Moderna Museet, em Stockholm, recebeu uma caixa de madeira que continha óleos, aquarelas, estudos botânicos de plantas, flores e sementes, diagramas matemáticos incompreensíveis e mais de 100 cadernos que documentam seu processo criativo. É difícil entender por que ninguém prestou atenção à sua obra por décadas. Hilma não tinha filhos e deixou tudo para um sobrinho que nunca acreditou que o que aquela mulher excêntrica pintava tivesse valor. Seu trabalho invalida o estereótipo de que as mulheres artistas, em sua época, eram capazes de copiar, mas não de abrirem novos caminhos.

Hilma af Klint, The Svan, 1915

Hilma af Klint, The Svan, 1915

Para saber mais sobre Hilma af Klint assista ao vídeo:

Sobre Vânia Myrrha

Vânia Myrrha é arquiteta, professora de História da Arte, da Arquitetura e do Design. Doutoranda em Design na Universidade do Estado de Minas Gerais. Mestre em Arquitetura e Urbanismo - UFMG. Especialista em História da Arte pela PUC Minas. Especialista em Arte Contemporânea pelo IEC - Instituto de Educação Continuada - PUC Minas.
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2 respostas para E agora, Kandinsky?

  1. Fran disse:

    Muito primoroso o trabalho de Hilma af Klint. Amei.

    • Vânia Myrrha disse:

      Obrigada Fran. Eu também adorei essa história inusitada, bonita e trazendo novidades pro mundo da arte!🙂

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