A mirada implacável de Edward Hopper

Um pintor norte americano do século XX, que embarcou em uma aventura estética solitária, desvinculada de qualquer movimento artístico e contra a corrente abstracionista que reinava na época. Hopper se aportou na figuração e fez de sua arte uma grande crônica sobre a solidão e a incomunicabilidade entre os seres humanos em um século em que vibrava uma atmosfera delirante.

Como Hitchcock em ‘Janela Indiscreta’, sigiloso e invisível, Hopper nos introduz em interiores urbanos para nos mostrar como somos e compartilhar nossa desolação, isolamento e estado de ânimo. O cinema e a publicidade se apropriaram das narrativas do artista chegando a converter seus quadros em ícones globais. De acordo com o livro “Alfred Hitchcock & The Making of Psycho“, de Stephen Robello, o Motel Bates foi modelado com base na pintura ‘House by the Railroad’, pintada em 1925 e atualmente no MoMA em Nova York.

Em seus anos de formação, de 1900 a 1924, Hopper esteve em uma breve estadia em Paris e frequentou o estúdio de Robert Henri na New York School of Art. Suas obras são tão poderosas quanto escassas. O artista produzia não mais que um quadro por ano. Nos últimos tempos de sua vida foi idolatrado e atingiu preços estratosféricos após sua morte, no entanto, foi ignorado pelo público e pela crítica durante muitos anos. Sobreviveu como ilustrador, até que em 1925 sua obra ‘House of the Railroad‘, na figura abaixo, anunciou uma nova fase e inaugurou seu estilo inconfundível, quando começou a se dedicar a seus grandes temas: a vida urbana, a intimidade, o isolamento, a melancolia e a complexidade das relações pessoais.

Edward Hopper, House by the Railroad, 1925. Óleo sobre tela, 61 x 73.7 cm, MoMA

A pintura expressa o tema central de Hopper: a alienação da vida moderna. O principal foco na tela é uma grande casa cinza, um estilo de arquitetura vitoriana que tornou-se moda na América do Norte durante meados do século XIX. Provavelmente, Hopper inventou esta casa tendo como modelo residências da região da Nova Inglaterra, onde costumava passar o verão, e edificações que ele pode ter visto nos Boulevards de Paris.

Se aos nossos olhos a arquitetura vitoriana da casa tem um certo charme, possivelmente no tempo de Hopper ela era considerada uma relíquia desarmoniosa, situada em um lugar árido, em uma era de grandes mudanças. Trazia à lembrança uma época em que apenas algumas famílias possuíam recursos para a construção de uma residência suntuosa, na última moda, em uma paisagem agrária. Talvez a casa tenha sido abandonada e Hopper a apresenta como um emblema duradouro do passado. Os dois temas, o progresso do mundo moderno e a memória histórica se reúnem nessa pintura. A estrada de ferro, em um terreno mais elevado, corta o quadro em dois com uma linha quase paralela à parte inferior e oculta a base da casa, insinuando a necessidade de uma nova fundação para a vida americana. Um sinal de progresso, a estrada de ferro foi o principal agente de mudança industrial e com uma ferrovia correndo tão perto da casa, podemos imaginar e quase ouvir o barulho do trem passando e as janelas trepidando. Mas, apesar dos trilhos de trem serem tipicamente associados a ruído, velocidade e às mudanças da vida moderna, esta cena é curiosamente quieta e silenciosa, como se a onda da industrialização tivesse passado por ela.

Sobre Vânia Myrrha

Vânia Myrrha é arquiteta, professora de História da Arte, da Arquitetura e do Design. Doutoranda em Design na Universidade do Estado de Minas Gerais. Mestre em Arquitetura e Urbanismo - UFMG. Especialista em História da Arte pela PUC Minas. Especialista em Arte Contemporânea pelo IEC - Instituto de Educação Continuada - PUC Minas.
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2 respostas para A mirada implacável de Edward Hopper

  1. Vânia Myrrha disse:

    E eu com saudade de você, Ramona! Muitos beijos!

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