Se eu falo sobre Artemisia Gentileschi, o assunto lhe parece familiar? Provavelmente não. É que ser mulher e pintora no Barroco não foi fácil.
Artemisia nasceu em Roma, em 8 de julho de 1593. A artista faz parte de uma saga de artistas de origem toscana, a Lomi. Sua arte se enquadra na tradição da família. Seu avô, Giovan Battista Lomi, era ourives e seu pai, Orazio, e seu tio Aurelio, eram pintores, que treinaram na oficina de seu tio Baccio Lomi, seguindo o estilo maneirista toscano de Agnolo Bronzino.
A artista recebeu forte influência da tendência naturalista de Caravaggio. Como no trabalho de seu pai e professor, o lado caravaggista de Artemisia aparece no forte contraste de luz, em que nos cenários e paisagens predominam os tons mais claros. Em Artemisia, o realismo prevalece. Seu primeiro trabalho conhecido é ‘Susana e os anciãos’, de 1610, que se encontra na Fundação Castelo Weissenstein, Coleção Schönborn, em Pommersfelden, um município na Alemanha. A pintura está assinada e datada, na pedra da fonte ao lado da perna da jovem. ‘Susana e os anciãos’ representaria o desejo, se o pintor fosse homem. Mas, a ‘Susana’ de Artemisia Gentisleschi mostra algo menos agradável. Se Artemisia vivesse no século XXI, participaria do movimento #MeToo. Isso marcou sua carreira.

Susana e os Anciãos, 1610, óleo sobre tela, 119 x 170 cm
Começou como pintora de retratos, mas muitos de seus temas são de personagens femininas, heroínas e mulheres fortes, especialmente a Virgem Maria e mulheres que aparecem em diversas passagens da Bíblia. Além de Suzana, estão entre elas, Cleópatra, cerca de 1620, Salomé com a cabeça de São João Batista, entre 1610-1615, Madalena penitente, 1615-1616, A Virgem amamentando a criança, cerca de 1616-1618, Santa Catarina de Alexandria, cerca de 1635, Davi e Betsabá, cerca de 1636 a 1637.
Em 1639, realizou um autorretrato como a alegoria da pintura, figura que sempre foi representada por uma mulher, o que impossibilitava que os pintores homens o fizessem. Em ‘Autorretrato como Alegoria da Pintura’, Artemisia se apresenta portando um pincel, diante de uma tela, no ato de pintar.

Gentileschi, Autorretrato como Alegoria da Pintura, 1638-39, óleo sobre tela, 93,5 x 73,7 cm
Entre 1612 e 1620 viveu em Florença, na corte do Grão Duque da Toscana, onde pintou uma de suas obras mais conhecida ‘Judith decapitando a Holofernes’, são duas versões, uma no Museo Nazionale di Capodimonte e outra versão na Galería degli Ufizzi. Também foi em Florença que conheceu Galileo Galilei, com quem manteve uma grande amizade e intercambiou correspondência durante o resto de suas vidas.
Entre 1620 e 1627 regressou a Roma, onde entrou em contato com algumas pessoas importantes como o secretário do Cardeal Francesco Borghese, Cassiano del Pozzo, com quem, também, manteve importante correspondência epistolar. Por mediação de Cassiano, Artemisia foi retratada pelo pintor francês Simón Vouet, entre 1623 e 1626, em Roma.

Simón Vouet, Retrato de Artemisia Lomi Gentileschi, entre 1623-1626, óleo sobre tela, 90 x 71 cm
Depois de 1627, passou um período em Veneza, e, finalmente em 1630, Gentileschi se estabeleceu em Nápoles pelo resto de sua vida, salvo algumas viagens entre 1638 e 1642, a Londres, onde trabalhou com seu pai, a convite do Rei Carlos I.
Artemisia Gentileschi se tornou a primeira mulher a ser membro da Academia de Pintura de Florença.